segunda-feira, 1 de junho de 2015
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
terça-feira, 1 de julho de 2014
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Solidão (O diário de um aspirante a astronauta)
Luis Fernando Veríssimo
Finalmente liberadas as gravações que a
NASA fez das experiências realizadas com o tenente da Marinha John Smith
para testar o comportamento humano em condições de completo isolamento
durante longos períodos de tempo, iguais ao que o homem terá que
enfrentar na exploração do espaço. O tenente Smith foi escolhido pelas
suas perfeitas condições físicas e mentais. Foi colocado dentro de um
simulador de voo com comida bastante para dois anos e os instrumentos
que normalmente levaria numa missão, inclusive um computador. Todos os
dias Smith teria que fazer um relatório verbal para que seu estado fosse
avaliado. O que segue são trechos das gravações feitas dos seus
relatórios.
Primeiro dia. “Meu nome é John Smith.
Estou ótimo. Passei todo o dia me familiarizando com este meu pequeno
lar. Já desafiei o computador para uma partida de xadrez. Acho que nos
daremos muito bem. (Risadas.) Só tenho uma queixa: esta comida em
bisnagas não se parece nada com a comida de mamãe… (Risadas.) Dois mais
dois são quatro. Encerro”.
Uma semana depois. “John Smith aqui.
Continuo muito bem. Ainda não consegui vencer nenhuma partida de xadrez
deste computador. Acho que ele está trapaceando. (Risadas.) Três vezes
três é nove. Encerro”.
Um mês depois. “(Risadas.) Meu nome é
John maldito Smith. Tudo bem. Um pouco entediado, mas tudo bem. Consegui
finalmente ganhar uma do computador, embora ele negue. Vou ter que
derrotá-lo de novo para convencer este cretino. Calculei mal e já comi
todas as bisnagas de torta de maçã. Agora só tem o maldito limão. Dois
vezes três são, deixa ver. Seis. Quer dizer… Não. Está certo. Seis.
Encerro”.
Dois meses depois. “Vocês sabem quem eu
sou. John qualquer coisa. Não aguento mais a arrogância deste
computador. Ele não é humano! Insiste que me deu xeque-mates
inexistentes e se recusa a admitir que está errado. Tivemos uma briga
feia hoje. Dois mais dois são… sei lá. Encerro”.
Quatro meses. “Alô. Tenho provas
irrefutáveis de que o computador está tentando boicotar esta missão!
Ouvi claramente ele dizer alguma coisa desagradável sobre mamãe. Canta
Strangers in the Night em falsete e não me deixa dormir. Não me
responsabilizo pelo que possa acontecer. Estou muito bem, lúcido e bem
disposto. Com licença que estão batendo na porta”.
Sexto mês. “Meu nome é Smith. Maggie Smith. Por hoje é só”.
Oitavo mês. “(Risadas)”
Nono mês. “Smith aqui. Aconteceu o
inevitável. Matei o computador. Estávamos com um problema, onde colocar
as bisnagas vazias, e ele fez uma sugestão deselegante. Agora está
morto. Não tenho remorsos. Ontem recebi a visita de um vendedor de
enciclopédias. Não sei como ele conseguiu entrar aqui. Dois mais dois
geralmente é nove. Encerro”.
Décimo mês. “Meu nome é Brown ou Taylor.
Um mais um é umum. Dois mais dois, não. Iniciei um projeto
importantíssimo. Com as bisnagas vazias e partes do computador, estou
construindo uma mulher”.
Um ano. “Redford aqui. Sinto falta de um
espelho para poder ver a minha barba, que está bem comprida. A mulher
que fiz de bisnagas vazias e partes do falecido computador ficou ótima
mas, infelizmente, nossos gênios não combinavam. Ela foi para casa de
seus pais. Dois mais dois…”
Décimo-quarto mês. “Minha barba está
tentando boicotar a missão! Faz um estranho barulho eletrônico e várias
vezes já tentou me estrangular. Deve ser comunista. Começaram a chegar
as enciclopédias que comprei. Tenho jogado xadrez comigo mesmo e ganho
sempre”.
Décimo-quinto mês. “Aqui fala Zaratustra.
Atenção. Encontrei pegadas humanas dentro da cabine. Estou
investigando. Mandarei um relatório depois. Duas vezes três é demais.
Encerro”.
No dia seguinte. “Grande notícia. Há
outro ser humano dentro da cabine! Seu nome é Smith, John Smith, mas
como o encontrei numa terça-feira o chamarei de “Quinta”. Ele não fala,
mas joga xadrez como um mestre. (Risadas). Talvez tenha que matá-lo”.
Neste ponto, os cientistas da NASA
acharam melhor abrir a cápsula. Encontraram Smith com as mãos em volta
do próprio pescoço gritando: “Trapaceiro! Trapaceiro!”
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quarta-feira, 30 de abril de 2014
Como dar comprimidos a um gato
1.Pegue o gatinho e aninhe-o no seu braço esquerdo como se segurasse um bebê, tendo o comprimido na palma da mão esquerda. Coloque o indicador e o polegar da mão direita nos dois lados da boquinha do bichano e aplique uma suave pressão nas bochechas. Quando o felino abrir a boca, pegue rápido o comprimido da palma da mão esquerda e atire-o lá para dentro. Deixe o gato fechar a boquinha e engolir.
2. Recupere o comprimido do chão e o gato de detrás do sofá. Aninhe o gato novamente no braço esquerdo e repita o processo.
3. Vá ao quarto buscar o gato e jogue fora o comprimido meio desfeito.
4. Retire um novo comprimido da embalagem, aninhe o gato no seu braço, segurando firmemente as patas traseiras com a mão esquerda. Obrigue o gato a abrir a mandíbula e empurre o comprimido com o indicador direito até o fundo da boca. Mantenha a boca do gato fechada e conte até 10.
5. Recolha o comprimido de dentro do aquário e o gato de cima do guarda-roupa. Chame a sua esposa para ajudar.
6. Ajoelhe-se no chão, tendo o gato firmemente preso entre os joelhos. Segure as quatro patas. Ignore os rosnados ameaçadores do gato. Peça à sua esposa que segure firmemente a cabeça do bichinho com uma mão e force a ponta de uma régua para dentro da boca do gato com a outra. Ela deve deixar rolar o comprimindo pela régua e esfregar vigorosamente o pescoço do gato.
7. Desça o gato de cima da cortina e retire outro comprimido da embalagem. Tome nota mental de que precisará adquirir outra régua e mandar consertar as cortinas. Cuidadosamente varra os cacos das estatuetas e dos vasos do meio da sala e guarde-os para colar mais tarde.
8. Enrole o gato numa toalha grande e peça à sua esposa que se deite por cima de forma a que apenas a cabeça do gato apareça por debaixo do sovaco dela. Instale o comprimido na ponta de um canudinho, obrigue o gato a abrir a boca e mantenha-a aberta com um lápis atravessado. Assopre o comprimido do canudinho para dentro da boca do gato.
9. Consulte a bula para verificar se comprimido de gato faz mal a ser humano. Tome uma cerveja para lavar o gosto da boca. Faça um curativo no antebraço da sua esposa e remova as manchas de sangue do carpete com água fria e sabão.
10. Retire o gato do galpão do vizinho. Pegue outro comprimido. Abra outra cerveja. Coloque o gato dentro do armário e feche a porta até o pescoço de forma que apenas a cabeça fique de fora. Force a abertura da boca do gato com uma colher de sobremesa. Jeitosamente, utilize um elástico como atiradeira para lançar o comprimido pela garganta do gato.
11. Procure uma chave de fenda e ponha a porta do armário novamente no lugar. Tome a cerveja. Procure uma garrafa de cachaça. Tome um traguinho. Aplique uma compressa fria na bochecha e verifique a data da sua mais recente vacina contra tétano. Aplique uma compressa de cachaça na bochecha para desinfetar. Tome mais um traguinho. Jogue a camiseta no lixo e procure outra no quarto.
12. Ligue para os bombeiros, pedindo que venham retirar o desgraçado do gato lá de cima da árvore do outro lado da rua. Peça desculpas ao vizinho que se machucou ao tentar desviar-se do gato em fuga. Retire o último comprimido da embalagem.
13. Amarre as patas da frente às patas de trás desse danado e prenda-o firmemente à perna da mesa de jantar. Nas mãos, ponha luvas de couro. Do quintal, puxe a mangueira. Empurre o comprimido para dentro da boca da besta, seguido de um pedaço de carne. Segurando firmemente a cabeça desse terror felino, mande-lhe meio litro de água goela abaixo, para que o comprimido desça.
14. Tome o que sobrou da cachaça. Peça à esposa que o leve ao pronto-socorro mais próximo. Aguente firme enquanto o médico lhe costura os dedos e o antebraço e retira os restos do comprimido de dentro do olho direito. Lembre-se: "homem não chora". A caminho de casa, use o celular para falar com as casas de móveis para se informar sobre o preço de uma nova mesa de jantar.
15. Peça à Liga de Proteção aos Animais que mandem um funcionário com urgência para recolher o raio desse bicho mutante. Ligue para a loja dos animais e pergunte se eles têm tartaruguinhas para vender.
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